1919 - 1924, Artigos de Época, Belos e Malditos, Berenice Corta os Cabelos, Neste Lado do Paraíso, O Diamante do Tamanho do Ritz, O Vegetal

F. Scott Fitzgerald por Edmund Wilson

Esse artigo sobre Fitzgerald e sobre seu livro foi originalmente escrito para The Bookman e publicado no The Literacy Spotlight e, posteriormente, incluído no livro do autor The Shores of Light.

Foi dito por uma pessoa célere (que era Edna St. Vincent Millay, que encontrou Scott Fitzgerald em Paris na primavera de 1921) que conhecer F. Scott Fitzgerald é como imaginar uma velha que ganhou de alguém um diamante; ela está extremamente orgulhosa do diamante e o mostra a todos que passam, ao passo que todos estão supresos como uma velha ignorante possui uma jóia tão valiosa; já que ela mesma não parece à altura de seu valor.

A pessoa que inventou tamanha comparação não conhecia bem Fitzgerald e, na minha opinião, provavelmente o viu em seus momentos de indiferença ou tédio. O leitor não deve supor que há qualquer coisa de verdade nessa alusão. Scott Fitzgerald não é uma velha, mas um rapaz atraente e, muito menos, estúpido, muito pelo contrário, ele é extremamente inteligente. Ainda sim, há uma verdade simbólica na citação acima: é verdade que Fitzgerald tenha recebido uma jóia que ele não sabe exatamente para que serve. Isso porque ele foi agraciado com uma imaginação sem controle intelectual; lhe foi dado um desejo de beleza sem um ideal estético; e lhe foi dado o dom das impressões sem muitas ideias para expressá-las.

Considere, por exemplo, o romance – Neste Lado do Paraíso – que lhe trouxe reputação. A estória tem quase todos os erros e deficiências que um romance pode ter. Não só é uma grande imitação mas uma imitação inferior de seu modelo. Fitzgerald, quando escreveu o livro, estava embriagado de Compton Mackenzie, e me parece uma tentativa americana de reescrever Sinister Street. Agora, à Mackenzie, apesar do seu talento pitoresco, inventividade cômica e capacidade de bela escrita, que disse que aprendeu com Keats, lhe falta ao mesmo tempo força intelectual e imaginação emocional para encorpar e destacar a matéria-prima que ele secretamente tem em enorme abundância. Nas sementes que ele colheu do jardim de Keats, um dos mais florescentes da Inglaterra, floreou tão profundamente que acabou perdendo o fio-da-meada. Michael Fane, o herói de Sinister Street, foi engolido na floresta de descrições; coberto de criaturas e colombinas. Na época em que ele foi à Oxford, sua personalidade começou a enturvar-se e, no final (em Belgrado), acabou perdendo a identidade. Como consequência, Amory Blaine, o herói de Neste Lado do Paraíso, tem poucas chances de coerência: Fitzgerald o dotou, claramente, de uma certa vida emocional que em Michael Fane não existe; porém ele é afogado em tantos incidentes alegóricos que não consegue dominar o dom com unidade e força. Resumindo, uma das principais fraquezas de Neste Lado do Paraíso é que não é a respeito de nada: o conteúdo moral e intelectual não passa de um gesto – um gesto de revolta indefinida. A própria estória, acima de tudo, é imatura; está sempre à beira do ridículo. E, finalmente, Neste Lado do Paraíso é um dos livros mais iliteratos de méritos publicados (um erro que o editor parece não ter feito o menor esforço para remediar). Não obstante ornamentado com ideias absurdas, é também inundado de paravras jogadas sobre algumas das mais inacuradas imprudências.

Eu disse que Neste Lado do Paraíso comete a maior parte dos pecados que um romance pode cometer; porém, não comete nenhum pecado imperdoável: ele não falha. A trama absurda é cheia de vida. Está mais para uma vida etérea e mercurial: as emoções não lhe tocam profudamente; o drama não lhe faz prender a respiração; mas a alegria, cores e movimento o tornou excitante após a realidade pesada e indigesta de tantas ficções americanas. Se alguém se lembra da forragem sem sal de The Harbor de Ernest Poole como exemplo, também consegue entender a aclamação incrível que Neste Lado do Paraíso incitou. O romance foi também bem escrito – bem escrito apesar da sua iliteratura. É verdade, como eu disse acima, que Fitzgerald não domina bem a linguagem; suas escolhas de palavras são tão mal-usadas que chegam a ser desconsertantes. Você verá “Para qualquer lugar que você olhe (sic) torna-se – religião, arquitetura, literatura”; “a Juventude das minhas coleções”; “Havia coisas legais nele (no quarto)… uma prole de vigários (vários) gostos impacientes”; “uma mente assim, lucrativa em inteligência, intuição e decisões rápidas”; etc..; etc. Isso me faz lembrar de:

“Agib, que conseguia batucar qualquer marcha no Teodolito barulhento; tocava diligentemente o Zoétropo o dia inteiro, e soprava alegremente o carreto a noite toda.”

Fica bem claro que Fitzgerald utiliza a melodia da linguagem de ouvido e, por isso, não o faz de mal. Ele tem um instinto natural gracioso e vívido de prosa que alguns de seus colegas mais pretenciosos invejam.

Com relaçao ao próprio autor, há talvez duas coisas que vale saber devido à influência em seu trabalho. A primeira é que ele vem do Meio-Oeste – Saint Paul, Minnesota. Fitzgerald é tão produto das grandes cidades e country clubs do meio-oeste como Sinclair Lewis é das pradarias e vilarejos. O que encontramos nele é muito do que encontramos na prosperidade dessas cidades: sensibilidade e força de vontade sem uma base sólida de cultura ou bom gosto; uma estrutura de mansões, hotéis caros e brilhantes, e atividades sociais empolgantes baseadas não no século 18, mas simplesmente nas planícies do oeste. E sinto pena que ele não tenha falado mais sobre o Oeste: que é talvez o único nicho que ele realmente entende. Quando Fitzgerald aborda o Leste, traz clichês do leste rico – a preocupação com as aparências, o apetite visível pela festas magníficas e barulhentas, a atmosfera social das charmosas melindrosa e da juventude comparativamente intocável, ainda que esnobe. Em Belos e Malditos, por exemplo, parece que ele se move em um vácuo; as personagens não tem nenhuma conexão real com o pano de fundo a que foram determinadas; elas não são parte do organismo de Nova Iorque como as personagens de Bernice Corta o Cabelo são parte do organismo de St. Paul. Com certeza, F. Scott Fitzgerald algum dia deveria fazer pela Av. Summit o mesmo que Lewis fez pela Main Street. Só que não suponha que o autor de Neste Lado do Paraíso é meramente um produto do Meio-Oeste, bem vestido e de pele alva, enviado para a faculdade no leste. A segunda coisa que você deve saber é que Fitzgerald é parte irlandês e que ele traz a vida e a ficção certas qualidades que não são anglo-saxônicas. Como os irlandeses, Fitzgerald é romântico, ainda que cínico a respeito de romances; é tão amargo como extasiante; ácido como lírico. Ele se apresenta como um playboy, ainda que faça troça de paybloys incessantemente. Ele é vaidoso, malicioso, perspicaz e afiado, e tem o dom irlandês de transformar a linguagem em algo iridescente e surpreendível. Ele lembra como, de fato, o grande irlandês Bernard Shaw descreveu os irlandeses: “A imaginação de um irlandês nunca o abandona, nunca o convence, nunca o satisfaz; mas o torna em alguém que não consegue encarar a realidade, ou lidar com ela, ou conquistá-la; ele só consegue zombar dos que a veem… e imaginar a tortura que deve ser suportá-la sem uma dose de whisky… e tudo mais que vai numa gargalhada horrorosa, insensível e traiçoeira.”

De resto, F. Scott Fitzgerald é mais aquele tipo de amigo infantil, envolto em seus devaneios e projeta isso no papel. Para uma pessoa com a sua agilidade mental, ele é extraordinariamente pouco preocupado com os problemas do mundo: é como uma mulher, não é muito voltado aos pensamentos abstratos ou impessoais. Conversas sobre política ou assuntos gerais tendem a morrer com Fitzgerald. Raramente irritante, ele nunca é pretencioso ou chato. Ele é desprovido de sentimentalismos e assume as rédeas do seu egoísmo incurável para rir de si mesmo e da insegurança de menino acerca do seu próprio talento. E ele demonstra, tanto na sua personalidade como nos seus escritos, uma qualidade rara hoje em dia até mesmo entre os mais jovens autores americanos: ele é praticamente o único de todos capaz de manter a maior leveza de espírito. Enquanto um Sinclair Lewis satírico cozinharia “O Probema do Caixeiro-Viajante” em vapor rancoroso e fumegante, Fitzgerald, em Belos e Malditos, transformou tudo isso em uma farça hilária. As personagens dele – e ele – são atores numa palhaçada élfica; assim como são ágeis, alegres e amáveis – são também corações-de-pedra – como fadas. A Columbina enrola o Harlequim numa corda de couro e o atira do alto do Ritz, e ambos saem dançando a Dança Morris numa caixa de bebida falsificada; as pantalonas marcadas com um epigrama o deixam magro como uma folha; o policial tropeça no Harlequim e cai dentro da Fonte Pulitzer. Um instante antes da cortina cair, Harlequim coloca bigodes falsos e finge ser Bernard Shaw; ele dá uma entrevista elaborada aos repórteres sobre política, religião e história; cem mil leitores leem e ficam mais ou menos impressionados; a Columbina quase morre de tanto rir; Harlequim cai fora e vai atrás de uma caixa de gin.

Deixe-me citar um incidente caracterísco em conexão com Belos e Malditos. Desde que começou a escrever Neste Lado do Paraíso – inspirado por Wells e Mackenzie – Fitzgerald se familiarizou com uma escola diferente da ficção: a do pessimismo-irônico. Na faculdade, ele achava que o que deveria fazer era escrever romances biográficos que explodem em ideias no final; só que desde sua entrada no mundo literário, ele descobriu um outro gênero que recentemente o favoreceu; o tipo que se alimenta da tragédia e sobre o qual Mencken chamou de “vida sem sentido”. Fitzgerald imaginava que, no final, o valor do romance era a descoberta do sentido da vida; só que agora ele se aventura a quebrar de vez uma tragédia em 100% de pedaços sem sentido. Como resultado de sua determinação, a primeira versão de Belos e Malditos culminou numa orgia de horrores para o qual o leitor desavisado não estava preparado. Fitzgerald destrói suas personagens numa sucessão de catástrofes tão arbitrárias que, apesar de tudo, fazem parecer que a perversidade de Hardy está de acordo com as leis naturais. A heroína começa a perder sua beleza prematuramente ainda jovem, e seu caráter se despedaça com isso; Richard Carmel, um escritor promissor, começa a perder seus ideais artísticos ao se prostituir ao gosto popular; e o rico Anthony Patch não perde apenas todo o seu dinheiro, incapaz de se sustentar, acaba sucumbindo à bebedeira e, eventualmente, enlouquece. O momento mais amargo da estória é quando, no final, Anthony encontra-se vagando pelas ruas de Nova Iorque na tentativa de conseguir um empréstimo. Depois de falhar humilhantemente diversas vezes, ele finalmente aborda um velho amigo que vê entrar num táxi juntamente com uma dama elegante. Esse é o brilhante Maury Noble, um cínico intelectual rico que esfaqueia Anthony até a morte e depois vai embora no táxi. “Acontece”, diz o autor, “que ele (Maury) não percebeu que era Anthony. Isso porque a sede de Maury por bebidas o havia deixado completamente cego!”. O ponto é esse: apesar de Fitzgerald ter tido a intenção de criar uma cena séria, ele não hesitou, quando viu pessoas caindo no riso, de rir de si mesmo, pego de surpresa e deleite como se tivesse acabado de topar com o enredo numa charge de Max Beerbohm. De primeira ele improvisou um burlesco “Para Anthony, os olhos de Maury pareciam imóveis como vidro, suas pernas pareciam rígidas a medida que andava, e quando ele falou, parecia sem vida. Quando Anthony chegou perto, ele viu que Maury estava morto.”

Concluindo, seria injusto submeter Scott Fitzgerald, ainda em seus vinte anos e com uma vida de obras pela frente, a um rigoroso linchamento. Sua imaginação fértil ainda produzirá algo durável. Quanto ao presente, entretanto, essa imaginação certamente ainda não demonstrou sua melhor forma: sofre penosamente da falta de disciplina e pobreza de conceitos estéticos. Fitzgerald é criativamente brilhante mas sua estórias parecem se aniquilar; ele não as planeja completamente ou possivelmente não desenvolve seus temas de início. Isso é verdade até para seus contos fantasiosos de mais sucesso, como O Diamante do Tamanho do Ritz, ou a comédia O Vegetal. Por outro lado, Belos e Malditos, imperfeito do jeito que é, demonstra uma evolução comparado a Neste Lado do Paraíso; o estilo um pouco mais amadurecido e o enredo mais sólido, e as cenas artísticas mais convincentes do que qualquer outra de suas obras anteriores.

De qualquer forma, até mesmo o trabalho mais recente de Fitzgerald tem uma certa importância moral. Na mesma expressão anárquica em que ele se encontra desnorteado, com a revolta de quem não consegue consertar um objeto quebrado, ele é o resultado típico da geração da guerra – a mesma geração tão memoravelmente descrita na última página de Neste Lado do Paraíso como “crescidos para encontrar todos os deuses mortos, todas as guerras lutadas, toda fé nos homens abalada”. Há uma moral em Belos e Malditos cujo autor talvez não tenha se dado conta. O herói e a heroína desse livro vertiginoso são criaturas sem mérito ou sentido que se entregam aos deboches selvagens e, nem no começo nem no final, tomam uma única decisão séria sequer; ainda que deixam a impressão que, apesar de seu comportamento fantástico, Anthony e Gloria Patch são as pessoas mais racionais em todo o livro. Onde quer que eles se encontrem, com a seriedade da vida contemporânea, são feitos para serem ridídulos, objetos de desprezo ou alegria. Vemos o exército, instituições financeiras e de negócios sendo sucessivamente e casualmente expostos completamente sem um pingo de dignidade A conclusão a que somos levados a chegar é que, com a civilização do jeito que está, o único caminho são e honroso é escapar dessa sociedade organizada e viver a aventura do momento. Isso não pode ser somente uma reação a uma situação pessoal que se ergue num paradoxo no livro. Talvez não devamos exigir um equilíbrio moral inalcansável de jovens, mesmo que capazes ou brilhantes, que escrevem livros no ano de 1921. Temos que nos lembrar de que eles tiveram que crescer, às margens da guerra, na sociedade e no comércio da Era da Confusão propriamente dita.

 

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