Biografia

Recortes de F. Scott Fitzgerald por Herbert Gorman

Tradução livre do texto “Glimpses of F. Scott Fiztgerald” escrito por Herman Gorman para o Fitzgerald/Hemingway Annual 1973. Todos os direitos do texto são pertencentes à Editora Microcard Edition Books e aos seus respectivos autores. A publicação desse texto visa apenas tornar a obra e estudos sobre F. Scott Fiztgerald acessível aos estudantes de língua portuguesa visto que o acesso ao anuário não é disponível em todos os países. A publicação desse texto não traz nenhum benefício financeiro ao blog. 

***

   No mundo literário e artístico da década de 20 haviam vários grupos, comumente chamados de panelinhas por aqueles que não sabiam exatamente o sentido da palavra, e um tanto independentes; mas que, geralmente, se interligavam em maior ou menor grau como círculos sobrepostos. Muitos desses grupos eram simpatizantes dos mesmos objetivos e fins mas outros eram violentamente antagonistas em tudo, incluindo personalidades. Por exemplo, Matthew Josephson distintamente não pertencia ao mesmo grupo que o falecido Ernest Boyd. Portanto era possível estar no meio efervescente e saber muitas coisas sobre outrem que alguém encontrou pessoalmente porém, por assim dizer, raramente quando esses círculos se interligavam. Era por causa dessa dinâmica de grupos arbitrária, eu imagino, que eu encontrei tão poucas vezes F. Scott Fitzgerald e, ainda que nossos grupos eventualmente se cruzassem, eu ouvia tanto a seu respeito que já havia concebido seu lugar no hall das grandes coisas. Por um tempo meu grupo circulara ao redor da poetisa Elinor Wylie e, como nele se encontravam Edmund Wilson e John Peale Bishop, ambos formados em Princeton na mesma época, acabou incluindo, ainda que remotamente, Fitzgerald, certamente pelos inúmeros boatos ou senão pela sua própria presença. Das vezes que eu o encontrei, em suma maioria casualmente em ambientes lotados, há três encontros que eu gostaria de relembrar porque me parecem – nessa presente data – iluminar a sua personalidade num tipo de caráter a lá Pilgrim’s Progress¹.
  Durante a maior parte do verão e outono de 1926 minha esposa e eu estávamos morando no Hotel Royal em Cannes, França, um dos menores resorts no Croisette de frente para pra uma estreita faixa de areia no mar Mediterrâneo. Apesar de ser baixa temporada em Cannes, ela continuava lotada já que havia se tornado parte de uma moda esnobe para os estrangeiros sem rumo estabelecerem sua própria alta temporada nas redondezas plácidas da Riviera. Para falar a verdade, não havia nenhum cassino aberto (o primeiro abrira apenas uma década depois para apostadores de verão) mas Juan-les-Pins era próxima o suficiente – uma distância curta de carro ou ônibus – e havia um pequeno e gracioso casino lá onde podíamos jogar boule a noite inteira sem perder uma fortuna. Os dias eram longos e agradáveis; o sol brilhava quase todo o tempo; a comida era excelente; e o custo de vida não havia começado a subir ainda ao patamar que antecedeu aos assustadores anos 30 que arruinariam a todos nós, e uma boa parte da Geração encontrara refúgio naquela utopia marxista! Uma manhã perto da hora do almoço, eu ouvi da janela do segundo andar o som estridente de uma buzina e, alguns minutos depois, o porteiro bateu na minha porta avisando que um amigo esperava  lá embaixo. Eu desci até a entrada lateral do hotel e lá estava Scott Fitzgerald num pequeno carro conversível francês (acho que um Citroen) com a Sra. Dorothy Parker sentada ao lado dele. Ele pulou por cima da porta de seu voiture e veio me cumprimentar com entusiasmo.

    Naquela época, Scott tinha por volta de trinta anos mas parecia muito mais jovem, tanto em aparência como em atitudes. Ele estava vestindo uma calça de linho branco amassada, uma camisa esportiva branca aberta no colarinho e um par de tênis brancos sujos; sua face e braços estavam mais corados do que bronzeados e o seu cabelo parecia platinado pelo brilho do sol de Esterel. Havia algo de Menino de Ouro na sua aparência. Ele estava extremamente animado, pulando e gesticulando o tempo todo. Quando minha esposa se juntou a nós, nos dirigimos naquele pequeno carro de Croisette até a Cidade Velha, onde sentamos numa mesa em frente ao minúsculo porto de pequeno barcos a motor a cruzar regularmente entre as ilhas de Saint-Margueritte e Saint-Honorat. Era muito agradável nos sentar embaixo da sombra das árvores e sentir a brisa confortável tocando nossa pele. Eu me lembro vagamente sobre o que conversamos nas duas horas ou mais que passamos por ali bebendo aperitivos, mas me recordo que por um bom tempo Scott insistia em conversar em rimas caipiras e que, por diversas vezes, ele repetia quase que apaixonadamente a última frase do seu romance mais recente, O Grande Gatsby, aquele sobre o futuro orgástico que “ano a ano recua diante de nós”. Das rimas eu em lembro apenas:
Todos as moças e rapazes
Amam vir a Cans
Para encontrar aquele velho mormón
Herbet Sherbet Gorman
    Ele falou também sobre o seu novo livro (que depois soube que já estava bem avançado), perguntou sobre James Joyce e Ford Madox Ford e me convidou para uma festa na piscina em Cap D’Antibes. Ele nunca me disse nem a data nem o local, então não fui. Já sobre a Sra. Parker, famosa pela sagacidade e por ser a alma de toda ocasião cuja presença adornava, não me lembro de sequer de uma palavra que havia dito.
    Isso talvez seja reflexo da minha concentração em Scott, cujas realizações eu sabia de cor. Com o sucesso inequívoco do O Grande Gatsby o elevando e os planos para o novo romance já se estabelecendo em sua imaginação, ele estava surfando uma onda de boa sorte e realização pessoal que agora eu sei que ele jamais experimentaria novamente. Mas eu não vi nenhuma sombra pairando naquele momento. Todas as coisas maravilhosas pareciam estar vindo em sua direção e ele estava nos revelando a sua fortuna. Para mim foi significante que ele repetira diversas vezes a sua frase sobre um futuro orgástico. Porquê orgástico? O prazer pitoresco que ele sentia espontaneamente, sua risada constante, suas maneiras agitadas, tudo mostrava uma personalidade intoxicada de si mesma: mas numa alegria não narcisística. Ele demonstrava a conquista; havia se absolvido de dúvidas passadas e sucesso duvidoso; ele estava na estradas dos ricos e merecedores de fama (agora certa) combinados. Minha impressão sobre ele naquele dia em Cannes era de um rapaz de verdadeira e luminosa auto-estima sobre aquilo que havia feito e aquilo que o futuro, orgástico ou não, tornaria possível a ele.
    O segundo encontro que eu gostaria de mencionar são os fragmentos juntados (a duas mãos com Edmund Wilson) no livro The Far Side of Paradise de Arthur Mizener. Acredito que essa reunião se passou em 1928, porém pode ter sido quase um ano depois. As memórias às vezes bagunçam os anos quando a identidade mostra mais de sessenta anos. De qualquer forma, a reunião aconteceu no apartamento de Adrienne Monnier na rue de l’Odeon no lado sul do Sena em Paris e a ocasião era um jantar em homenagem a Srta. Sylvia Beach, editora original de Ulysses de James Joyce. Joyce e eu caminháramos uma certa distância do bistrô onde regularmente nos encontrávamos para tomarmos dois Pernods antes do jantar, e estávamos um pouco atrasados quando chegamos ao apartamento da Mademoiselle Monnier. Ao redor das mobílias charmosas do período, pinturas, tapeçaria maravilhosa e bibelôs, um murmurinho de vozes nos cumprimentou e as primeiras pessoas que vimos foram Zelda e Scott Fitzgerald. Joyce ficou um pouco tenso como se fosse encarar um perigo. Nós fomos recebidos por Adrienne e Sylvia, acenamos para Nora Joyce que acabara de chegar (atrasada como sempre) com minha esposa um pouco antes de nós e Scott se aproximou imediatamente após. Ele correu e, de joelhos, beijou a mão de Joyce. A mim ele deu um caloroso aperto de mão como se a última vez que nos tínhamos visto fora no dia anterior. Durante o jantar (um muito fino, diga-se por passagem) ele gritou diversas vezes a Joyce coisas como “Como é se sentir um grande gênio, Senhor?” e “Estou tão emocionado de o ver, Senhor, que poderia chorar.” Em contraste com seu jeito ebuliente, estava o silêncio e semblante distante de Zelda Fitzgerald, sua face que de tão inerte parecia às vezes uma estátua indiana, fria e desinteressada. Joyce que, apesar de manter o controle e atitudes dignas e de grande domínio próprio, nunca se sentia realmente confortável em reuniões heterogêneas de qualquer tamanho (ele sempre preferiu grupos pequenos de quatro ou seis pessoas exceto em seu aniversário), murmurava alguma resposta curta a Scott e parecia se esconder atrás das lentes grossas de seus óculos. Seu desejo era de ir embora o mais rápido possível e conseguimos sair assim que encontramos educadamente uma oportunidade após o jantar.
    Quando Nora, minha esposa, Joyce e eu pegamos um táxi barulhento, ele nos explicou o que causou tamanho desconforto na presença de Scott. Não é que ele não gostasse dele. Era outra coisa completamente diferente. Era medo. Parece que algum tempo antes quando ele estava vivendo no apartamento do sexto andar no número 2 da praça Robiac, quase com a rue de Grenelle, Scott apareceu por lá chamando por Joyce. Talvez Scott tivesse bebido mas pelo seu  comportamento, pelo o que Joyce descreveu, não parecia ser resultado de nenhum agente artificial. Era sinceridade dele mesmo e ela o traia indubitavelmente sua adoração por grandeza literária. Ele também beijou as mãos de Joyce, elogiou a beleza de Nora Joyce e, finalmente, passou correndo pela porta de vidro que dava para o balcão de pedra, subiu no parapeito de 20cm de largura e ameaçou arremessar-se na rua de paralelepípedos abaixo caso Nora não declarasse seu amor por ele também. Nora se declarou rispidamente enquanto Joyce, que sempre teve pavor de alturas, se recobrava de quase um desmaio. “Acho que ele é maluco”, disse Joyce para mim depois de relatar o ocorrido. “Ele vai acabar se machucando um dia.” Nora fechou a discussão com um comentário pensativo “Ah, ele é um bom garoto, Herbert. Acho que vou acampar com ele algum dia.” Joyce sorriu (Nora sempre ameaçava acampar com todo o tipo de gente) e o assunto se encerrou.
    Parece haver um diferença certa entre o Scott Fitzgerald desse encontro e aquele de Cannes alguns anos antes. A alegria e excitação vivaz nele, a ingenuidade e o triunfo quase pueril de suas conquistas de alguma forma se esvairiam e em seu lugar surgiu uma adulação exagerada de outro homem que havia atingido grandeza literária por meio da disciplina árdua de sua mente desafiadora. Acho também que não necessariamente tinha que ser o Joyce; poderia ter sido qualquer outro artista literário ilustre que dominara sua indisciplina e a transformara em conquista. Certamente, naquele tempo, Scott parecia manter de algum jeito as aparências apesar de dar para perceber uma generosidade beirando a inveja em suas atitudes. A constante apelação da palavra “Senhor”, as referências ao “grande gênio”, o incidente relatado por Joyce que revelou um tipo de histeria nele, a perda daquela brilhante qualidade de uma juventude entusiasmada pode ter várias explicações mas, para mim, parecera que Scott perdera algo que nunca mais conseguiu recuperar. O Menino de Ouro sumira. O futuro orgástico havia recuado monstruosamente. Isso pode parecer algo a ser acrescentado ao resumo de todas as evidências (e em certo ponto deve ser: – não importa o tamanho do esforço em relembrar um período imparcialmente, seus eventos inexoráveis e provas tardias colorem nossos melhores julgamentos); estou convencido que o que eu vi e ouvi naquela noite era significante e verdadeiro e que eu já sabia o tempo todo. Scott já não existia mais em sua juventude e ele havia atingido – possivelmente inconscientemente – o nível de suas próprias limitações e estava apavorado em ter que encarara-las.
    Isso pareceu confirma-se no terceiro encontro com ele que gostaria de lembrar aqui. Aconteceu após um jantar oferecido na casa de Lawrence Langner em Nova Iorque. Deve ter sido por volta do início da primavera em 1929. Um número de atores e atrizes célebres estavam presentes (pois Lawrence era o diretor do Teatro Guild e em sua generosidade, um padrinho urbano para todos eles) e notei Scott sentado embaixo de uma janela conversando com a Sra. Blanche Hays. Ele se levantou e parecia feliz em me ver, me deu um aperto de mãos vigoroso e atravessou o salão com um braço ao redor do meu. Ele parecia mais pálido do que eu me lembrava, as bochechas rosadas tinham quase sumido, mas talvez seja por causa do contraste com o seu smoking preto. Ele segurava um copo com Highball nas mãos mas não aparentava estar alcoolizado. Ele me perguntou sobre o Joyce e como estava o desenvolvimento do Trabalho em Progresso (nome ao qual Finnegans Wake conhecido até sua publicação) e eu perguntei como ele, Scott, estava se saindo com seu próprio romance. Ele respondeu sombriamente que estava se saindo bem e então mudou de assunto e perguntou se eu havia visto Edmund Wilson recentemente. Eu disse que não e ele me pediu para mandar lembranças ao Joyce. Conversamos brevemente sobre Paris e a Riviera até que ele se distraiu com uma loirinha e esta foi a última vez que eu o vi naquela noite.
    Quando olho para trás e penso nesse encontro acho agora que havia uma lassitude que eu nunca achei que iria reconhecer em Scott Fitzgerald. Ele havia visivelmente envelhecido e o frescor de Cannes se foi completamente. Ou talvez foi aquela noite. O tempo passara para todos nós; a era da alegria louca estava terminando; os estrondos da tempestade econômica estavam no ar, mesmo que nenhum de nós soubéssemos o que realmente eram. Era o final de uma era e a turba marxista ficou para trás na esquina. Alguns meses depois a Bolsa de Ações iria quebrar e os reflexos seriam ouvidos no mundo inteiro. Quase cinco anos se passaram até que o livro ao qual Scott se referira como “em desenvolvimento” em 1926 fosse publicado (1934) e como eu perdi contato com ele não fiquei sabendo de todos os desafios e tribulações que ele enfrentou para completá-lo. Entretanto, me parece que o período digamos entre 1925 e 1929 incluíram tanto os anos de incrível ascensão e infeliz queda de Scott Fitzgerald. Eu não consigo concordar com os críticos que afirmaram que Suave é a Noite (o livro publicado em 1934) possa ser comparado ao O Grande Gatsby. Scott pertencia aquela época e dificilmente conseguia ultrapassar criativamente esse período. Esses três encontros que eu descrevi, em meu julgamento, são o resumo disso. Foi a saga de Pilgrim’s Progress mas sem Cidade Celestial esperando nas nuvens.
Hughsville, Nova Iorque
Fonte Bibliográfica:
Fitzgerald/Hemingway Annual 1973; Gorman, H.; Pág 117; Editora Microcard Edition Books, 1974. ISBN: 0-910972-38-9

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