Fitzgerald Hemingway Annual 1969, RL Samsell, Texto Academico

Hollywood – Não Era Tão Ruim Assim por RL Samsell

Tradução livre do texto “Hollywood – It Wasn’t All That Bad” escrito por R. L. Samsell para o Fitzgerald/Hemingway Annual 1969. Todos os direitos do texto são pertencentes à The National Cash Register Company e aos seus respectivos autores. A publicação desse texto visa apenas tornar a obra e estudos sobre F. Scott Fiztgerald acessível aos estudantes de língua portuguesa visto que o acesso ao anuário não é disponível em todos os países. A publicação desse texto não traz nenhum benefício financeiro ao blog. 

***

A foto de F. Scott Fitzgerald me olha de cima. Eu franzo a sobrancelha. Ele sorri. O que eu quero – realmente quero – é me tornar um morimbundo amadamente esquecido da mesma forma que ele era quando chegou a Hollywood em julho de 1937. Um grande perdedor patético e carente. Ganhando uns mil dólares por semana, sofrendo semanalmente para ganhar aquele aumento para mil duzentos e cinquenta. Que dificuldade. Aqueles anos eram de inflação também. Um dólar não valia nada. Com certeza o velho Scott sofreu.

Já pensou nas decisões que ele tinha que tomar? Vamos ver – “Será que eu devo ir ao Troc ou ao The Players? Ei, Sheilo, vamos jantar no Musso & Frank.”

E também havia as livrarias. Stanley Rose era a melhor, a mais amigável. “Talvez nós encontremos o Pep West lá. Okay?”

Claro, seus amigos não eram tantos. E eram infernalmente tediosos – Robert Bencheley, Charlie Butterworth, John O’Hara, Nunnally Johnson, Dorothy Parker. Certamente só davam para o gasto.

Também, será que ele deveria escrever algum outro conto do Pat Hobby, ou será que já era hora de começar outro novo, enorme e maravilhoso romance? Oh, deveria ter sido muito complicado, está bem. Será que ele deveria enviar a Scottie para a Europa no verão de 38? Que tal Vassar? Não é uma escola ruim. Será que eles deveriam ir à festa da Norma Shearer? Pep, ele está dando uma festa também. Mas cadê o tempo para escrever para John Biggs, S.J. Perelman, Arnold Gingrich, Tomas Wolfe, Helen Hayes, Gerald Murphy, Edmund Wilson, Budd Schulberg, Max Perkins, Ernest Hemingway? Como Pearl Bailey costumava cantar – “Não é uma turma ruim para se encontrar”.

Então havia os problemas práticos. Como mudar-se do Garden of Allah para a casa de praia em Malibu. Será que o Allah custava realmente quatrocentos dólares ao mês? Em Malibu, por exemplo, ele conseguia pagar um empregado. Depois, em Horton Belly Acres, ele conseguia pagar uma secretária para ajudá-lo com o livro. Finalmente, o apartamento em North Laurel Avenue era, e ainda é, um local imponente e atrativo.

Ocasionalmente, durante as pausas dos textos, havia tempo para passear pela cidade, torcer pela U.C.L.A no Coliseo, pater papo com o Bogart no The Players, bater-perna com o Thomas Mann quando ele saia do sítio em Santa Monica.

E os textos estavam indo muito bem já perto do fim. Talvez até bem demais. Livre dos filmes, ele se dedicava a escrever dia sim, dia não, na cama ou fora dela, escrevendo contos ou se dedicando ao Last Tycoon. A Scribners e o Collier’s já demonstravam interresse no novo romance e, explodindo de alegria, ele escreveu para a filha dizendo que estava trabalhando em algo com muita dedicação.

Qualquer que fosse a sua saúde, ou a falta dela, parece bem claro que ele não estava a par do seu quadro grave ou de sua doença terminal. Ele continuava bebendo Coca-Cola, comendo barras de chocolate até o último momento, e não era incomum vê-lo passeando pela vizinhança, ocasionalmente em direção ao Schwab’s para fazer isso ou aquilo, talvez somente para comprar o jornal. Na noite anterior à sua morte, ele e a Srta. Graham foram a uma estréia no Pantages. Mas talvez sua produção seja um atestado da energia que sua saúde o permitia usar. Um após a morte de Scott Fitzgerald, a Scribners publicou um volume lindo de fragmentos do Tycoon, enquanto e significantemente, outros nove contos inéditos foram publicados. Tudo isso nos quarenta e um meses da sua passagem por Hollywood. A disciplina de Fitzgerald atingiu eventualmente a publicação – nesses meses ou nos subsequentes – de mais de trinta contos e artigos. Vale apontar que os contos da série Pat Hobby vagou quase que eternamente em uma das melhores revistas da América.

Em resumo, eu acho que muita coisa que se falou sobre as dificuldades de Fitzgerald em Hollywood são boatos. Suas experiências com “checagem de fatos” estão mais para aquele bloqueio que todos os escritores vivenciam. Até a sua saúde precária vem sendo dramatizada. Ele ainda andava pela cidade e atendia à festas até o final. Os livreiros locais se lembram bem dele. Eu poderia citar ao menor meia-dúzia de amigos que passeavam e conversavam com ele frequentemente. Um biógrafo sugere que havia sinais de depressão observados pela “…expansão das redes de farmácia de Los Angeles causados pelo calor fora do natural do sol.” Outro biógrafo diz que Fitzgerald “… se cansava facilmente e não tinha energia suficiente para se dedicar à escrita por um dia inteiro…” Mas exatamente o que um escritor faz? O ponto é que: Scott Fitzgerald era extremamente organizado, altamente treinado e disciplinado que sabia viver melhor do que a maioria de nós. Nos seus últimos meses, ele estudara arte, música, e estava construindo uma biblioteca admirável. Os sonhos dele estavam intactos. Seu talento estava próximo ou atingira o pico. Ironicamente, aqueles que preferiram apontar toda a tristeza de seus últimos anos, inclusive a qualquer custo, são os mesmos enlutados que nunca conseguiram atingir em toda a sua vida o que ele produziu naqueles mesmos poucos anos.

Talvez um dos acadêmicos um dia questionará, seriamente, quanto tempo e emoção F. Scott Fitzgerald se dedicou a conseguir a atenção dos outros. Em qualquer que tenha sido a pausa, ou cidade ensolarada, ele deixou um toque da sua genialidade – seu carinho, ou humor, ou seu espírito de generosidade. Quando ele prometia alguma coisa a algum conhecido, enviava uma cópia de seus livros com dedicatória dentro de cesta de laranjas, com geléias, completa com livros que ele esperava que a pessoa lesse. E as dedicatórias prometidas não eram frases banais de algum autor. De fato, uma compilação das dedicatórias de Fitzgerald seria, por si só, uma coleção literária de solicitude. Elas ainda aparecem por aí. Eu honrosamente tenho uma edição do Gatsby na prateleira cujo prefácio bem humorado onde ele colou uma sinopse recortada de uma revista com dois band-aids. Veja bem, naqueles anos difíceis em Hollywood, era como se ele houvesse levado um tapa de uma beldade escandinava. Recentemente, um comerciante de Bervely Hills me ofereceu um poema de quatro linhas por $400 – meramente uma bronca engraçada em um fã que pediu um autógrafo de Fitzgerald e esqueceu de enviar o selo para a carta-resposta. Então, após escrever um poema Fitzgerald deu o autógrafo mais que dois terços da página.

Ao mesmo tempo, Fitzgerald não aguentava escrever um cartão simples. Foi durante esses dias de Hollywood que ele escreveu o seguinte cartão de São Valentim para um velho amigo da costa leste:

Valentim era um Santo;
Ele era tudo que eu não.
Por isso era abençoado
Com todos os outros
Pássaros sagrados
Cantando palavras alegres
Eu queria ser um Santo
Só que eu não sou
Assim eu poderia ir a seu encontro
Ah, eba, eu já estou
FELIZ DIA DE SÃO VALENTIM

Ah, ele tinha problemas no coração. Seu coração era grande demais.

Zelda Fitzgerald sabia melhor do que ninguém a natureza desse homem quando, escrevendo após sua morte, ela disse “Ele foi o espírito mais generoso que já existiu…” E por em qualquer nível, exceto fiscal, Fitzgerald morreu como um grande sucesso. E da mesma forma sua grandeza não foi menosprezada. Ele sabia muito bem que as autoridades estavam perto, como mostrou o New Republic em 1941, quando elas se mostraram.

Então, quando você pensar em Fitzgerald em Hollywood, tente o ver sob a luz de muito trabalho duro, diversão, amigos que ele cuidadosamente selecionava, lugares que lhe agradavam, momentos que provavelmente foram dos melhores. Ironicamente, exceto quando lemos sobre Fitzgerald, costumamos ouvir que os anos trinta eram os verdadeiros anos dourados. Ele aproveitou parte dessa áurea. Acredite. Você e eu deveríamos ter vivido essa era. Você e eu teríamos passado bem.

Fonte Bibliográfica:
Fitzgerald/Hemingway Annual 1969; Samsell, RJ.; Pág 15-17; Editora Microcard Edition Books, 1969. ISBN: 75-83781

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