1919 - 1924, Amor, Cartas, Espiritismo, Morte, Zelda

Mensagem do Além

05/1919

Para Scott,

Um lindo filhote dourado de gato seria ótimo – só que eu não trocaria meu gato por dois desses, e ele ainda por cima acabaria matando o mais novo – Além disso, perdi minha escova e meu espelho no Ford de Cobb e adoraria ter um com flores cor-de-rosa nas beiradas. Desde que você venha, querido –

A Sra. Francesca – que nunca ouviu falar em você – recebeu uma mensagem no Ouija para mim. Não havia mão de ninguém, a não ser a dela – e o tabuleiro nos disse para casarmos – que somos almas gêmeas. Os teosofistas acham que duas almas gêmeas encarnam juntas – não necessariamente ao mesmo tempo, mas se acasalam – desde o tempo em que as pessoas era bissexuais, portanto, você vê que “alma gêmea” não é só coisa que sai na Snappy Story, no fim das contas. Eu nunca consigo receber nenhuma mensagem, mas a coisa de fato se mexeu para mim ontem à noite – só que não conseguiu dizer nada além de “morta, morta” – de modo que fiquei com medo e fui embora. É de fato extraordinário, mesmo que você queira zombar. Eu preferia que você não o fizesse porque é fácil demais; acreditar é muito mais inteligente.

Vamos para Ashville em julho – está decidido – mas teremos alguma dificuldade com os “trinta luares” – receio que em algumas noites falte lua – Mas, amor, nós estaremos juntos um mês inteiro – e as luas, no fundo, não importam nem um pouco. Acho que vou cortar o cabelo e isso pode provocar furor. Gostaria que você me dissesse que vai lhe agradar – ninguém me incentiva – mas pense como seria bom na água. Eu com toda certeza vou ficar um horror.

O “Red” disse ontem à noite que eu era a criatura mais rosa e branca que ele já tinha visto na vida, de modo que adormeci em seu colo. Claro que você não se importa porque foi tudo muito fraterno e estávamos acompanhados de três moças.

Querido Scott – venha, por favor – eu amo você com tudo que tenho dentro de mim – e ficarei tão, tão contente de vê-lo – vamos representar o vaudevile no dia 20 – quem sabe você queira assistir – mas estamos no meio de uma tremenda reviravolta – o elenco está sendo revisto – e acho que eles não vão me deixar cantar – o engraçado é que eu acho que canto muito bem.

Olhe só esse pulso – enferrujou e está sofrendo de espasmos – Então traduza para o que eu estou sempre pensando – Amor

Zelda

1919 - 1924, Artigos de Época, Belos e Malditos, Berenice Corta os Cabelos, Neste Lado do Paraíso, O Diamante do Tamanho do Ritz, O Vegetal

F. Scott Fitzgerald por Edmund Wilson

Esse artigo sobre Fitzgerald e sobre seu livro foi originalmente escrito para The Bookman e publicado no The Literacy Spotlight e, posteriormente, incluído no livro do autor The Shores of Light.

Foi dito por uma pessoa célere (que era Edna St. Vincent Millay, que encontrou Scott Fitzgerald em Paris na primavera de 1921) que conhecer F. Scott Fitzgerald é como imaginar uma velha que ganhou de alguém um diamante; ela está extremamente orgulhosa do diamante e o mostra a todos que passam, ao passo que todos estão supresos como uma velha ignorante possui uma jóia tão valiosa; já que ela mesma não parece à altura de seu valor.

A pessoa que inventou tamanha comparação não conhecia bem Fitzgerald e, na minha opinião, provavelmente o viu em seus momentos de indiferença ou tédio. O leitor não deve supor que há qualquer coisa de verdade nessa alusão. Scott Fitzgerald não é uma velha, mas um rapaz atraente e, muito menos, estúpido, muito pelo contrário, ele é extremamente inteligente. Ainda sim, há uma verdade simbólica na citação acima: é verdade que Fitzgerald tenha recebido uma jóia que ele não sabe exatamente para que serve. Isso porque ele foi agraciado com uma imaginação sem controle intelectual; lhe foi dado um desejo de beleza sem um ideal estético; e lhe foi dado o dom das impressões sem muitas ideias para expressá-las.

Considere, por exemplo, o romance – Neste Lado do Paraíso – que lhe trouxe reputação. A estória tem quase todos os erros e deficiências que um romance pode ter. Não só é uma grande imitação mas uma imitação inferior de seu modelo. Fitzgerald, quando escreveu o livro, estava embriagado de Compton Mackenzie, e me parece uma tentativa americana de reescrever Sinister Street. Agora, à Mackenzie, apesar do seu talento pitoresco, inventividade cômica e capacidade de bela escrita, que disse que aprendeu com Keats, lhe falta ao mesmo tempo força intelectual e imaginação emocional para encorpar e destacar a matéria-prima que ele secretamente tem em enorme abundância. Nas sementes que ele colheu do jardim de Keats, um dos mais florescentes da Inglaterra, floreou tão profundamente que acabou perdendo o fio-da-meada. Michael Fane, o herói de Sinister Street, foi engolido na floresta de descrições; coberto de criaturas e colombinas. Na época em que ele foi à Oxford, sua personalidade começou a enturvar-se e, no final (em Belgrado), acabou perdendo a identidade. Como consequência, Amory Blaine, o herói de Neste Lado do Paraíso, tem poucas chances de coerência: Fitzgerald o dotou, claramente, de uma certa vida emocional que em Michael Fane não existe; porém ele é afogado em tantos incidentes alegóricos que não consegue dominar o dom com unidade e força. Resumindo, uma das principais fraquezas de Neste Lado do Paraíso é que não é a respeito de nada: o conteúdo moral e intelectual não passa de um gesto – um gesto de revolta indefinida. A própria estória, acima de tudo, é imatura; está sempre à beira do ridículo. E, finalmente, Neste Lado do Paraíso é um dos livros mais iliteratos de méritos publicados (um erro que o editor parece não ter feito o menor esforço para remediar). Não obstante ornamentado com ideias absurdas, é também inundado de paravras jogadas sobre algumas das mais inacuradas imprudências.

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1919 - 1924, Cartas, Dívidas, Ginevra King, Life in Letters, Perguntas

Sucesso?

Apesar de eu ter dado muitas festas, elas tem chamado mais atenção pela sua espetacularidade do que pela frequência, o que contribuiu bastante para a contrução do mito do beberrão.

F. Scott Fitzgerald (Janeiro, 1922)

Observemos a carta de 30/12/1922 enviada para Maxwell Perkins. Nela, destaca-se o endividamento de Scott em duas vertentes: tanto em relação as suas contas, quanto ao empréstimo contraído com o agente literário Paul R. Reynolds (1905-1988). Oras, Scott estava no auge de seu sucesso como escritor, já em vias de conclusão de seu segundo livro e, apesar das críticas literárias, estabelecia-se como voz de sua geração. Então, como poderia estar tão individado? Ele havia se casado recentemente com Zelda, portanto, a instabilidade emocional da esposa ainda não poderia ser a razão principal de seus problemas financeiros – diferentemente do que aconteceu nas décadas seguintes.

Por outro lado, as festas frequentementes patrocinadas com recursos próprios – fonte de auto-afirmação perante os amigos, família e, principalmente, sociedade – contribuíram imensamente para o endividamento inicial, resultando em um ciclo vicioso que se estendeu pelo resto de sua vida.

Simone Artifon, em sua tese “Endividamento nos dias atuais: fatores psicológicos implicados nesse processo” (2013), explica que o descontrole financeiro e o endividamento tem influência direta nos aspectos psicológicos e culturais, o que pode ter sido o gatilho para uma vida financeiramente complicada. Scott entendia a realidade pelos olhos de uma classe avessa aos problemas mundanos. Além disso, o impacto do fracasso financeiro paterno e a rejeição de Ginevra King na adolescência – “Moças ricas não se casam com garotos pobres” – certamente contribuíram para a ideia de sucesso ligada ao exibicionismo. Segundo Bauman (2010), “consumir de forma abundante é uma prática associada à marca do sucesso e as possibilidades que se abrem”. Seria possível que a satisfação de demonstrar seu sucesso era maior do que o tamanho do sacrifício pessoal?

1919 - 1924, Cartas, Dívidas, Life in Letters, Maxwell Perkins

Garantias

Nova Iorque, 31 de dezembro de 1920

Caro Sr. Perkins:

Nesta tarde, o banco se recusou a me emprestar qualquer fundo mesmo tendo como garantia os investimento que tenho – e estou andando de um lado para outro já há uma hora tentando decidir o que fazer. Aqui, com o livro a ser concluído em umas duas semanas, tenho U$600 em contas a pagar e uma dívida de US$650 com Reynolds de adiantamento de um conto que estou terrivelmente incapacitado de escrever. Já iniciei o conto umas dozes vezes ontem e vou enlouquecer hoje se tiver que reinicia-lo ainda mais uma vez, que é o que eles realmente querem que aconteça.

Espero que, ao menos sendo honesto com a Scribner, poderia continuar com vocês. Mas já estou a ponto de estourar. Por acaso há alguma chance de você me dar algum adiantamento pelo novo romance, ao invés do pagamento dos contos de Natal que de qualquer forma têm prazo apenas em julho? E considerar a mesma taxa de juros que a Scribner têm com os bancos? Ou talvez você pudesse fazer um empréstimo mensal pela Scribner e Co. tendo meus próximos 10 livros em garantia? Preciso de US$1600.

Ansiosamente,

F. Scott Fitzgerald