1919 - 1924, Cartas, Dívidas, Ginevra King, Life in Letters, Perguntas

Sucesso?

Apesar de eu ter dado muitas festas, elas tem chamado mais atenção pela sua espetacularidade do que pela frequência, o que contribuiu bastante para a contrução do mito do beberrão.

F. Scott Fitzgerald (Janeiro, 1922)

Observemos a carta de 30/12/1922 enviada para Maxwell Perkins. Nela, destaca-se o endividamento de Scott em duas vertentes: tanto em relação as suas contas, quanto ao empréstimo contraído com o agente literário Paul R. Reynolds (1905-1988). Oras, Scott estava no auge de seu sucesso como escritor, já em vias de conclusão de seu segundo livro e, apesar das críticas literárias, estabelecia-se como voz de sua geração. Então, como poderia estar tão individado? Ele havia se casado recentemente com Zelda, portanto, a instabilidade emocional da esposa ainda não poderia ser a razão principal de seus problemas financeiros – diferentemente do que aconteceu nas décadas seguintes.

Por outro lado, as festas frequentementes patrocinadas com recursos próprios – fonte de auto-afirmação perante os amigos, família e, principalmente, sociedade – contribuíram imensamente para o endividamento inicial, resultando em um ciclo vicioso que se estendeu pelo resto de sua vida.

Simone Artifon, em sua tese “Endividamento nos dias atuais: fatores psicológicos implicados nesse processo” (2013), explica que o descontrole financeiro e o endividamento tem influência direta nos aspectos psicológicos e culturais, o que pode ter sido o gatilho para uma vida financeiramente complicada. Scott entendia a realidade pelos olhos de uma classe avessa aos problemas mundanos. Além disso, o impacto do fracasso financeiro paterno e a rejeição de Ginevra King na adolescência – “Moças ricas não se casam com garotos pobres” – certamente contribuíram para a ideia de sucesso ligada ao exibicionismo. Segundo Bauman (2010), “consumir de forma abundante é uma prática associada à marca do sucesso e as possibilidades que se abrem”. Seria possível que a satisfação de demonstrar seu sucesso era maior do que o tamanho do sacrifício pessoal?

1919 - 1924, Cartas, Dívidas, Life in Letters, Maxwell Perkins

Garantias

Nova Iorque, 31 de dezembro de 1920

Caro Sr. Perkins:

Nesta tarde, o banco se recusou a me emprestar qualquer fundo mesmo tendo como garantia os investimento que tenho – e estou andando de um lado para outro já há uma hora tentando decidir o que fazer. Aqui, com o livro a ser concluído em umas duas semanas, tenho U$600 em contas a pagar e uma dívida de US$650 com Reynolds de adiantamento de um conto que estou terrivelmente incapacitado de escrever. Já iniciei o conto umas dozes vezes ontem e vou enlouquecer hoje se tiver que reinicia-lo ainda mais uma vez, que é o que eles realmente querem que aconteça.

Espero que, ao menos sendo honesto com a Scribner, poderia continuar com vocês. Mas já estou a ponto de estourar. Por acaso há alguma chance de você me dar algum adiantamento pelo novo romance, ao invés do pagamento dos contos de Natal que de qualquer forma têm prazo apenas em julho? E considerar a mesma taxa de juros que a Scribner têm com os bancos? Ou talvez você pudesse fazer um empréstimo mensal pela Scribner e Co. tendo meus próximos 10 livros em garantia? Preciso de US$1600.

Ansiosamente,

F. Scott Fitzgerald