Amor, Ginevra King, O Grande Gatsby, Perguntas, The Perfect Hour

Memórias e Literatura

Claro que você também pode ir ter com rapazes que, ao volante de conversíveis possantes, correm para a Ginevra Mitchell do momento.

Zelda – Carta de Março, 1934

Não é segredo que Ginevra King, primeiro amor adolescente de Scott, tenha tido um impacto determinante na carreira literária do autor. Muitas de suas heroínas, sejam de contos ou romances, foram baseadas nela – ainda que retratadas muitas vezes como insensíveis às inúmeras investidas românticas de seus admiradores. O maior exemplo, e o mais famoso de todos, é o de Daisy Buchanan em O Grande Gatsby. Daisy, apesar de infeliz no próprio casamento, opta por convenções sociais ao invés de se entregar ao amor puro e juvenil de Gatsby. O impacto da perda emocional serve de catalizador para que Gatsby busque a sua reinvenção, numa tentativa desesperada, ainda que calculada, de reavivar nela o seu grande amor; e é exatamente nesse ponto que a ficção se separa da realidade.

Como Fitzgerald se utilizava confessadamente de sua vida pessoal – e da de seus conhecidos – como base para o desenvolvimento de enredos, é fácil ser induzido a acreditar que Gatsby foi escrito com a intenção de chamar a atenção de Ginevra, principalmente com pitadas de vingança ao retratar a pobre menina rica de coração gelado. Porém, Gatsby, assim como em outros contos, não fala a respeito do primeiro amor, mas sim da perda dele e da impossibilidade de revivê-lo.

Estudos publicados no Journal of Neurophysiology indicam que o amor romântico se desenvolveu como mecanismo biológico para garantir a reprodução humana e aumentar as chances de sobrevivência da prole. Também, as áreas ligadas ao cérebro ativadas pelo amor são associadas com recompensa, vícios, controle de emoções, sentimentos de dependência, dor física e perturbações. Partindo desse princípio, é possível entender que as lembranças de um grande amor ativam a memória biológica do cérebro (enzimas, reações físicas, etc) e, consequentemente, reavivam a resposta emocional à lembrança em questão. Ou seja, lembrar do (a) ex dói emocionalmente e fisicamente.

Diferentemente de Gatsby, Scott não procurou reconquistar Ginevra. Suas cartas para ela poderiam até ter uma ponta de dor-de-cotovelo, mas isso dizia mais a respeito dele do que dela. Sem jamais desmerecer o preconceito que ele passou por ser irlandês, católico e de classe média durante o seu relacionamento, vale lembrar que os dois mativeram um amor platônico que sequer chegou a se concretizar em um único beijo. De acordo com a própria Ginevra, eles não passaram mais do que 15 horas juntos ao longo de um ano e meio. Naturalmente, o romance foi esfriando até que, eventualmente, terminou. Então, por que a menina de 16 anos tornou-se tão presente em sua vida literária?

James L. W. West III, em seu livro The Perfect Hour – The Romance of F. Scott Fitzgerald and Ginevra King, his First Love, explica que ela teve grande importância em pelo menos dois aspectos:

  1. Possibilitou o acesso dele à um mundo exclusivo e fechado de famílias tradicionais ricas e privilegiadas, que em outra situações não seria possível;
  2. As cartas trocadas entre eles se tornaram uma passagem para sentimentos e emoções que serviam como base verossímil para o desenvolvimento de suas personagens.

Apesar de raramente entrarem em contato, os dois mantinham um relacionamento cordial, tanto que Scottie, filha dele com Zelda, conhecia Ginevra por meio de amizades em comum. Ainda sim, Scott evitava se encontrar com ela pessoalmente, talvez por medo de sua própria reação (e quem sabe da dor), talvez pelo medo de quebrar a ilusão que havia construído à respeito dela.

Ginevra King, eventualmente, se tornou abstrata para Fitzgerald. Ele não a viu crescer e, em sua cabeça, a tristeza e os percauços da vida não a tocaram. (…) Ela se manteve imune ao tempo, preservada em suas memórias.

James L. W. West III

O imaginário popular tende a torcer pelo final feliz entre duas personagens, o amor que se sobrepõe aos obstáculos e catalogar, aqueles que não contribuem para esse final, como vilões. À essa altura, Scott se tornou tão abstrato para nós como Ginevra para ele. Devemos lembrar que a discussões não é em torno de quem ele amava mais, Zelda ou Ginevra, mas sim nos mecanismos literários dos quais ele se valia para a construção de sua narrativa. Nesse ponto, será que ele não se tornou obra de sua própria imaginação?

Biografia, Ginevra King, The Perfect Hour

Ginevra King

Ginevra King nasceu em Chicago em 1898, filha mais velha de Charles Garfield King e Ginevra Fuller King, e recebeu o nome em homenagem à sua mãe e à sua avó, Ginevra Fuller, inspirado na pintura de Leonardo da Vinci Ginevra Benci, nobre da corte florentina do século XV.

Ginevra King

Ambas famílias, King e Fuller, faziam parte da alta sociedade de Chicago. O avô paterno, Charles Bohan King, natural de Nova York, chegou à cidade em 1863, fez fortuna trabalhando como banqueiro e, posteriormente, presidente do Commercial Safe Deposit Co. Já o avô materno, William Alden Fuller, nativo de Massachusetts, entrou no negócio de madeireiras como contador em 1854 e depois na construção civil, fundando a Palmer Fuller & Co, que se beneficou imensamente do Grande Incêndio de Chicago em 1871. Assim como Bohan King, Fuller era prebisteriano. O pai, Charles Garfield King, foi um corretor da bolsa de sucesso, aumentando ainda mais os bens da família.

Charles King e sua esposa pertenciam ao Onwentsia, um country club exclusivo em Lake Forest. Os Kings socializavam com outras famílias proeminentes de Chicago. As crianças dessas famílias estudavam juntas em colégios, frequentavam a mesma igreja e brincavam em Lake Forest nas férias de verão. Essa era uma comunidade fechada: seus membros se aliavam ao dinheiro, propriedades, valores em comum e status social elevado.

James L. W. West III

Ginevra era uma moça linda. Tinha por volta de 1,60m, pernas torneadas, mãos delicadas, traços refinados, cabelos cacheados negros, olhos profundamente castanhos, penetrantes e de voz levemente rouca. Era ousada, sagaz e charmosa, sem perder a discrição. Entendia o seu papel na sociedade, regras e interesses. Estudou nos melhores internatos, era fluente em francês, culta, frequentadora das colunas sociais dos jornais da época e, acima de tudo, cortejada pelos filhos da alta sociedade americana. Ainda sim, mantinha uma certa rebeldia velada às convenções da época – especialmente no assunto romance – mas nunca teve interesse em realmente quebrar tabús ou paradigmas.

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Sucesso?

Apesar de eu ter dado muitas festas, elas tem chamado mais atenção pela sua espetacularidade do que pela frequência, o que contribuiu bastante para a contrução do mito do beberrão.

F. Scott Fitzgerald (Janeiro, 1922)

Observemos a carta de 30/12/1922 enviada para Maxwell Perkins. Nela, destaca-se o endividamento de Scott em duas vertentes: tanto em relação as suas contas, quanto ao empréstimo contraído com o agente literário Paul R. Reynolds (1905-1988). Oras, Scott estava no auge de seu sucesso como escritor, já em vias de conclusão de seu segundo livro e, apesar das críticas literárias, estabelecia-se como voz de sua geração. Então, como poderia estar tão individado? Ele havia se casado recentemente com Zelda, portanto, a instabilidade emocional da esposa ainda não poderia ser a razão principal de seus problemas financeiros – diferentemente do que aconteceu nas décadas seguintes.

Por outro lado, as festas frequentementes patrocinadas com recursos próprios – fonte de auto-afirmação perante os amigos, família e, principalmente, sociedade – contribuíram imensamente para o endividamento inicial, resultando em um ciclo vicioso que se estendeu pelo resto de sua vida.

Simone Artifon, em sua tese “Endividamento nos dias atuais: fatores psicológicos implicados nesse processo” (2013), explica que o descontrole financeiro e o endividamento tem influência direta nos aspectos psicológicos e culturais, o que pode ter sido o gatilho para uma vida financeiramente complicada. Scott entendia a realidade pelos olhos de uma classe avessa aos problemas mundanos. Além disso, o impacto do fracasso financeiro paterno e a rejeição de Ginevra King na adolescência – “Moças ricas não se casam com garotos pobres” – certamente contribuíram para a ideia de sucesso ligada ao exibicionismo. Segundo Bauman (2010), “consumir de forma abundante é uma prática associada à marca do sucesso e as possibilidades que se abrem”. Seria possível que a satisfação de demonstrar seu sucesso era maior do que o tamanho do sacrifício pessoal?