1900 - 1918, Amor, Cartas, Neste Lado do Paraíso, Zelda

Flores azuis chorosas

Após 15/03/1915

Para Scott,

Scott, meu amado querido – parece tudo tão sereno e macio, como este poente amarelo. Saber que eu sempre serei sua – que você de fato me possui – que nada pode nos separar – é tamanho alívio depois da tensão e do nervosismo do mês passado. Estou tão feliz que tenha vindo – feito o verão, bem quando eu mais precisava – e que me levou de volta com você. Esperar já não parece mais tão difícil. A vaga melancolia se foi – Eu amo você, meu amor.

Por que você foi comprar o “melhor no Exchange“? – Eu teria preferido uma outra variedade qualquer, de dez centavos o quarto de litro – eu só quis porque sabia que você adora a doçura – Respirar e saber que você adora o cheiro – Eu acho que gosto mais de sentir o cheiro dos jardins e das mariposas ao entardecer do que o cheiro dos belos quadros ou de bons livros – Parece ser o mais sensual dos sentidos. Alguma coisa em mim vibra com um cheiro sonhador de poente – um cheiro de sombras e de luas agonizantes.

Passei o dia inteiro no cemitério, hoje. Na verdade, não é bem um cemitério, você sabe – tentando destrancar uma campa enferrujada de uma sepultura construída na encosta do morro. Está toda esboroada e coberta de flores chorosas de um azul aguado, que podem ter nascido de olhos mortos – grudentas ao toque e com um cheiro enjoativo – Os rapazes queriam entrar lá para testar meus nervos – hoje à noite – Eu queria me sentir “William Wreford, 1864“. Porque os túmulos fazem as pessoas se sentirem vãs? Ouvi isso tantas vezes e Grey é tão convincente, mas, sei lá por quê, não consigo ver nada de inútil em ter vivido – Todas as colunas quebradas, mãos postas, pombas e anjos, tudo isso significa romance – em, em cem anos, acho que vou gostar de ver gente jovem curiosa para saber se eu tinha olhos castanhos ou azuis – claro que não são nem uma coisa nem outra – tomara que meu túmulo tenha em volta um ar de muitos anos atrás – Não é engraçado isso, que de uma fileira de soldados confederados, dois ou três nos façam pensar em amores e amantes mortos – quando são idênticos, todos eles, inclusive para o musgo amarelado? A morte antiga é tão bela – tão bela de fato – Nós haveremos de morrer juntos – Eu sei –

Meu bem

Zelda

Trecho retirado do livro Querido Scott, Querida Zelda, de Jackson R. Bryer & Cathy W. Barks.

1919 - 1924, Artigos de Época, Belos e Malditos, Berenice Corta os Cabelos, Neste Lado do Paraíso, O Diamante do Tamanho do Ritz, O Vegetal

F. Scott Fitzgerald por Edmund Wilson

Esse artigo sobre Fitzgerald e sobre seu livro foi originalmente escrito para The Bookman e publicado no The Literacy Spotlight e, posteriormente, incluído no livro do autor The Shores of Light.

Foi dito por uma pessoa célere (que era Edna St. Vincent Millay, que encontrou Scott Fitzgerald em Paris na primavera de 1921) que conhecer F. Scott Fitzgerald é como imaginar uma velha que ganhou de alguém um diamante; ela está extremamente orgulhosa do diamante e o mostra a todos que passam, ao passo que todos estão supresos como uma velha ignorante possui uma jóia tão valiosa; já que ela mesma não parece à altura de seu valor.

A pessoa que inventou tamanha comparação não conhecia bem Fitzgerald e, na minha opinião, provavelmente o viu em seus momentos de indiferença ou tédio. O leitor não deve supor que há qualquer coisa de verdade nessa alusão. Scott Fitzgerald não é uma velha, mas um rapaz atraente e, muito menos, estúpido, muito pelo contrário, ele é extremamente inteligente. Ainda sim, há uma verdade simbólica na citação acima: é verdade que Fitzgerald tenha recebido uma jóia que ele não sabe exatamente para que serve. Isso porque ele foi agraciado com uma imaginação sem controle intelectual; lhe foi dado um desejo de beleza sem um ideal estético; e lhe foi dado o dom das impressões sem muitas ideias para expressá-las.

Considere, por exemplo, o romance – Neste Lado do Paraíso – que lhe trouxe reputação. A estória tem quase todos os erros e deficiências que um romance pode ter. Não só é uma grande imitação mas uma imitação inferior de seu modelo. Fitzgerald, quando escreveu o livro, estava embriagado de Compton Mackenzie, e me parece uma tentativa americana de reescrever Sinister Street. Agora, à Mackenzie, apesar do seu talento pitoresco, inventividade cômica e capacidade de bela escrita, que disse que aprendeu com Keats, lhe falta ao mesmo tempo força intelectual e imaginação emocional para encorpar e destacar a matéria-prima que ele secretamente tem em enorme abundância. Nas sementes que ele colheu do jardim de Keats, um dos mais florescentes da Inglaterra, floreou tão profundamente que acabou perdendo o fio-da-meada. Michael Fane, o herói de Sinister Street, foi engolido na floresta de descrições; coberto de criaturas e colombinas. Na época em que ele foi à Oxford, sua personalidade começou a enturvar-se e, no final (em Belgrado), acabou perdendo a identidade. Como consequência, Amory Blaine, o herói de Neste Lado do Paraíso, tem poucas chances de coerência: Fitzgerald o dotou, claramente, de uma certa vida emocional que em Michael Fane não existe; porém ele é afogado em tantos incidentes alegóricos que não consegue dominar o dom com unidade e força. Resumindo, uma das principais fraquezas de Neste Lado do Paraíso é que não é a respeito de nada: o conteúdo moral e intelectual não passa de um gesto – um gesto de revolta indefinida. A própria estória, acima de tudo, é imatura; está sempre à beira do ridículo. E, finalmente, Neste Lado do Paraíso é um dos livros mais iliteratos de méritos publicados (um erro que o editor parece não ter feito o menor esforço para remediar). Não obstante ornamentado com ideias absurdas, é também inundado de paravras jogadas sobre algumas das mais inacuradas imprudências.

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